09 fev/15

Crítica do filme "Livre" por Mateus Barbassa

postado por Mateus Barbassa


“Toda emoção negativa que não é plenamente enfrentada nem considerada pelo que ela é no momento em que se manifesta não se dissipa por inteiro. Deixa atrás de si um traço remanescente de dor.”

Com esse trecho do escritor Eckhart Tolle começo meu texto sobre o filme “LIVRE” do diretor Jean-Marc Vallée e estrelado pela atriz Reese Witherspoon.


Sim. O filme é sobre dores, perdas, mas também sobre travessia, ritos de passagens e superação. Tendo com base a autobiografia de Cheryl Strayed, o filme apresenta de maneira fragmentada sua protagonista. O filme não começa pelo início, nem pelo fim, mas pelo meio. Uma decisão que se mostra bastante acertada. Vamos conhecendo-a de maneira horizontal. Sem pressa. Quando o filme começa, ela já está no meio de sua caminhada pela costa oeste dos EUA. Mas quem é ela? Por que ela está fazendo essa caminhada? Precisaria de algum motivo especial?

Através de flashbacks nada óbvios e na maioria das vezes, sinestésicos (por vezes um som, um trecho de uma música cantada pela mãe, um cheiro, um animal) vamos entendendo algumas coisas. Cheryl é a personificação de muitas mulheres. É aquela que perdeu a mãe muito cedo. É aquele que trai o marido com inúmeros parceiros. É também a usuária de heroína. É aquela que não se reconhece mais como indivíduo. É uma estrangeira de si mesma. Vivendo de maneira automatizada em busca de uma possível redenção ou expiação de uma culpa que nem ela mesma sabe qual é... Um belo dia, essa mulher (que é várias) decide se lançar numa jornada de autoconhecimento.  Ela abandona tudo e parte em direção ao desconhecido.



A beleza do filme está toda nessa trajetória. Que é sim dolorida, mas também redentora. Nesse rito de passagem, Cheryl enfrenta seu “corpo de dor” de maneira realista e palpável. Perscruta cada sobra de dor, cada emoção negativa não enfrentada, não aceita e abandonada de forma plena. Aos poucos, ela compreende que esse “corpo de dor” se alimenta de inconsciência e infelicidade, tornando-se a base de sua identidade. Mas Cheryl revive e ilumina cada lembrança, cada gesto, cada palavra. E é somente nessa investigação que há alguma possibilidade de libertação. Mas não é só isso. Ou Apenas isso. Numa metáfora genial (que eu não vou revelar aqui), ela também aprende a lição mais preciosa de todas:
 
Não projetarmos as antigas emoções nas situações significa que devemos encará-las diretamente dentro de nós.” (Eckhart Tolle)
 
É sobre isso o filme. Pra encerrar também gostaria de citar um trecho da Clarice Lispector que ficou martelando na minha cabeça durante a exibição do filme:

“Ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de Mim mesma em certos momentos brancos, porque basta‑me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte‑sem‑medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo...”



Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema.